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By Ferramentas Blog
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Ausência

2 de mai. de 2010

Chegou em casa tarde naquela noite. Tirou os desconfortáveis sapatos antes mesmo de fechar a porta, apoiando-se na maçaneta. Deixou-os na sala, amanhã guardaria, e seguiu para o quarto com passos leves e rápidos pelo chão frio.

Ele estava sentado diante do computador e a recepcionou com seus grandes olhos e um sorriso carinhoso, que ela recebeu com alívio depois do dia que tivera.

Disse-lhe que tomaria um banho rápido, depois iriam para a cama e assim o fez. Voltou para o quarto relaxada após a ducha quente e deitou-se ao lado dele. Deixou que o peito macio aquecesse suas costas, confortou-se com o braço que passava pela cintura e, sentindo que estava em casa, inspirou fundo o aroma amadeirado que ele exalava e que tomava todo o ambiente.

Inspirou até que não sentiu mais. O quarto esfriou. O peso do braço era imperceptível. Nas suas costas, só o vento gelado. Não havia vincos nas cobertas ou o peso da cabeça dele no travesseiro. No ar, nada do aroma reconfortante, só o cheio asséptico do lustra-móveis. Ele esvanecera, tal qual fumaça.

*Imagem por Meaghan Thomas, no Flickr


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3 anos

29 de abr. de 2010


Quando eu conheci meu namorado éramos amantes e eu, a esposa do governador. Ele era o mordomo e a ideia era pegar a fortuna e fugir, provavelmente para alguma ilha paradisíaca.

Era minha primeira - e única, até agora - vez num live action e eu não tinha muita ideia do que fazer. Ele era um pouco mais baixo, mais magro, tinha o cabelo mais curto e eu o achei bonitinho, mas não decorei seu rosto nem seu nome. Não estou brincando quando digo que não tenho memória. Eu era novinha, boba, tinha um namorado que foi uma das piores escolhas que fiz na vida e estava de rosa-choque.

Anos depois, com o dito namoro terminado há anos, outro rompido há meses, lembro-me da história. Na verdade, lembrei-me da história várias vezes nesse período. Lembrava quem era o governador, porque o encontrei algumas vezes depois do acontecido. Não lembrava quem era a violinista a quem dei carona nem quem era o meu amante. E queria me lembrar do meu amante, oras! Parte essencial do jogo!

Então uma colega, recém conhecida do meu recém iniciado curso de Jornalismo, me fala da banda do namorado, de como só tem homem bonito, que 3 estão solteiros e fala desse "falso-magro", elogiando o 6-pack (vulgo tanquinho) que só descobriu que ele tinha numa reunião da banda na casa dele, em que ele estava de toalha. Confesso, interessaram-me os fatores:
a) guitarrista;
b) portador de um tanquinho;
c) bonito e
d) solteiro.
(Não exatamente nessa ordem.)

Na casa de outra colega, prestes a fazer um trabalho, a garota me mostra os orkuts e dá ênfase ao guitarrista e ao vocalista, ao longo do dia (e mais algumas vezes nos dias seguintes) soltou algumas informações que ultrapassavam o quesito físico.


Esse guitarrista não me enganava. Eu já o tinha visto antes. Mas onde? Chegando em casa entrei de novo no perfil do orkut dele. E de novo. E vasculhei os amigos. Ele não tinha comunidades. Como diabos ia descobrir de onde o conhecia?

E ele entrou no meu orkut. E trocamos mensagens. E ele revela que foi meu amante no live action e tudo faz sentido. O rosto borrado ganha nitidez. O resto... é história.


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"Das Tripas, Coração"

9 de mar. de 2010

No caminho de volta, o motor do carro roncava alto, e eu só pensava no barulho de decolagem do avião. Era igual. Na minha cabeça, ao menos, era igual. Enquanto meu sogro zunia pela estrada, meus pensamentos estavam com o filho dele, naquela altura do campeonato já cruzando o país. Já devia estar saindo do Nordeste. E eu, ainda nem tinha saído de Pernambuco.

A viagem até Recife foi tranquila, quente, apesar do ar-condicionado, com o sol a pino invadindo minha janela. Ele do meu lado. A camiseta aberta por causa do calor. Eu olhava e pensava que morreria de saudades daquele 6-pack. E olhava pra ele através dos óculos escuros, com o marejado dos olhos muito bem escondidos e perguntava: "E agora, já posso começar o drama?" "Ainda não", dizia ele, "só quando eu estiver indo." Meu estômago então se revirava, não sei ainda se por causa das saudades prévias ou do balanço do carro, do zigue-zague da estrada, que me deixavam enjoada.

Ainda brinquei que tinha entendido o ditado "fazer das tripas coração". Ele me olhou com aquela ruguinha de indagação entre os olhos, também protegidos do sol, e eu disse que meu estõmago estava todo revoltado, e a culpa era dele, que não queria que eu chorasse. Se tivesse uma gastrite, ia mandar a conta pro Rio. Ele riu, eu sorri. Conversamos amenidades.

Aeroporto de Recife. Despachar malas, taxa de embarque, check-in. Um lanche rápido - muito rápido - e hora da despedida. Minha garganta fechou, a voz embargou, correram umas poucas lágrimas. Abraços, beijos, abraços na sogra, boa viagem, me manda uma mensagem quando chegar, pra eu ter certeza que o avião não caiu.

Até que o choro foi pouco. A fome pra lanchar depois foi pouca. A vontade de voltar pra casa foi pouca. Grande mesmo foi o choque. Voltar pra casa, pro meu quarto bagunçado, tomar banho e saber que não farei uma chamada local para comentar os acontecimentos do dia, não farei um charme para encontrá-lo fora de hora, o próximo abraço tem data certa para acontecer: cerca de 3 meses. Tudo isso pesou por dentro, ao mesmo tempo que esvaziou minha cabeça. Uma dor gelada sobe pelo esôfago. O rosto está quente e a cabeça girando. O lado irracional briga pra explodir, o racional lembra-me das outras coisas.

Daqui a pouco o avião pousará e ele sairá, já nem lembro se do Galeão ou do Santos Dumond. Estará cansado, meio amarrotado, espero que minimamente alimentado. Espero também que encontre fácil a carona dos parentes que o levarão para sua moradia temporária. Então meu telefone vai tocar e eu vou ler/ouvir que o avião não caiu, ele está bem, vai descansar e amanhã deve começar a procurar apartamento. E eu vou chorar e ele vai mandar eu parar. Porque não é o fim do mundo, achar passagens de avião com desconto não é difícil e eu tenho uma monografia para fazer.

No fim, minha estrada corre para o mar dele, de qualquer forma. Mas eu precisava desabafar antes que meu esôfago me abafasse. Que venha a monografia, as férias e o fôlego, porque passar no mestrado e chorar no aeroporto de saudades antecipadas dos meus pais no fim do ano só cabe a mim.


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Distância

20 de jan. de 2010

Um ensaio despreocupado corre na sala dos fundos, uma parte da banda tirando as músicas para o próximo show, alheia ao que ocorre no resto da casa. Enquanto isso, na sala principal, principal o futuro próximo do guitarrista é discutido, sem sua participação. A família debate sobre o próximo mês, sobre a viagem, sobre a moradia...


No escritório, a aspirante a comunicóloga se exaspera, sem conseguir focar em sua pesquisa. A conversa é por demais importante para ser ignorada. E é alta demais para permitir a concentração nos textos em outro idioma. Se nem as palavras em português se fixam em sua cabeça! Apenas os detalhes da mudança ecoam em seu cérebro: "Niterói, Niterói, Niterói." Uma cidade desconhecida, mas que guarda tanto do futuro. Ao menos do guitarrista. E o seu? Também estará lá?

A comunicóloga ouve as palavras do senhor, o mais velho na sala, e elas parecem pedras dispostas a enterrar o futuro do guitarrista. São palavras pesadas e negativas, dispostas a prenunciar "não vai dar certo". São quase que raivosas. Mas não podem ser, certo? Afinal, é do futuro do filho que está falando. As outras vozes são mais otimistas, mais leves, mais dispostas a fazer com que as coisas dêem certo. Nelas, a estudante se fixa.

Se tiver planejamento, vai dar certo. Se houver vontade do "migrante", além de paciência. Se não houver estresse demais. Não tem porque não dar. Mas... e se der certo? Se der certo ele estará longe e praticamente incomunicável. É certo que é o futuro dele. Mas estaria o futuro do casal comprometido?

A garota pára de fingir que está prestando atenção ao computador. Não está tampouco focada na conversa. Agora suas preocupações são outras. Não são mais se ele conseguirá encontrar um apartamento com facilidade. Será se eles conseguirão encontrar vôos e coordenar folgas com facilidade. Ele, sempre independente e seguro de si, tão adaptável, se moldando à nova cidade com facilidade. Ela, tão pouco flexível no tocante à distância e tão carente de atenção, de um colo, de sua companhia, ainda que silenciosa, na mesma cidade de sempre. Com os mesmos afazeres de sempre. Ele tem muito para desviar a atenção. Mas e ela?


De repente, sua preocupação não é com traição, com o que ele fará com o tempo livre, com o que fazer com as saudades. É com a adaptação. Com o que fazer com as horas que sobrarão. Se terá foco o suficiente para aproveitá-las de forma útil. De conseguir seu ticket para outro estado. Sua preocupação nunca foi com o outro. Não é tanto com o relacionamento. É consigo mesma.


******
Imagens daqui (avião) e daqui (Niterói). Vi umas fotos de Niterói na internet e gostei. Fiquei com vontade de conhecer. Fiquei com vontade de ir morar lá. Será que consigo ser centrada o suficiente, fazer um bom projeto e passar na prova do mestrado? 2011 promete!... (2010 nem começou e já tô visando o ano seguinte... Nonsene!)
 




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