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By Ferramentas Blog
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"Das Tripas, Coração"

9 de mar. de 2010

No caminho de volta, o motor do carro roncava alto, e eu só pensava no barulho de decolagem do avião. Era igual. Na minha cabeça, ao menos, era igual. Enquanto meu sogro zunia pela estrada, meus pensamentos estavam com o filho dele, naquela altura do campeonato já cruzando o país. Já devia estar saindo do Nordeste. E eu, ainda nem tinha saído de Pernambuco.

A viagem até Recife foi tranquila, quente, apesar do ar-condicionado, com o sol a pino invadindo minha janela. Ele do meu lado. A camiseta aberta por causa do calor. Eu olhava e pensava que morreria de saudades daquele 6-pack. E olhava pra ele através dos óculos escuros, com o marejado dos olhos muito bem escondidos e perguntava: "E agora, já posso começar o drama?" "Ainda não", dizia ele, "só quando eu estiver indo." Meu estômago então se revirava, não sei ainda se por causa das saudades prévias ou do balanço do carro, do zigue-zague da estrada, que me deixavam enjoada.

Ainda brinquei que tinha entendido o ditado "fazer das tripas coração". Ele me olhou com aquela ruguinha de indagação entre os olhos, também protegidos do sol, e eu disse que meu estõmago estava todo revoltado, e a culpa era dele, que não queria que eu chorasse. Se tivesse uma gastrite, ia mandar a conta pro Rio. Ele riu, eu sorri. Conversamos amenidades.

Aeroporto de Recife. Despachar malas, taxa de embarque, check-in. Um lanche rápido - muito rápido - e hora da despedida. Minha garganta fechou, a voz embargou, correram umas poucas lágrimas. Abraços, beijos, abraços na sogra, boa viagem, me manda uma mensagem quando chegar, pra eu ter certeza que o avião não caiu.

Até que o choro foi pouco. A fome pra lanchar depois foi pouca. A vontade de voltar pra casa foi pouca. Grande mesmo foi o choque. Voltar pra casa, pro meu quarto bagunçado, tomar banho e saber que não farei uma chamada local para comentar os acontecimentos do dia, não farei um charme para encontrá-lo fora de hora, o próximo abraço tem data certa para acontecer: cerca de 3 meses. Tudo isso pesou por dentro, ao mesmo tempo que esvaziou minha cabeça. Uma dor gelada sobe pelo esôfago. O rosto está quente e a cabeça girando. O lado irracional briga pra explodir, o racional lembra-me das outras coisas.

Daqui a pouco o avião pousará e ele sairá, já nem lembro se do Galeão ou do Santos Dumond. Estará cansado, meio amarrotado, espero que minimamente alimentado. Espero também que encontre fácil a carona dos parentes que o levarão para sua moradia temporária. Então meu telefone vai tocar e eu vou ler/ouvir que o avião não caiu, ele está bem, vai descansar e amanhã deve começar a procurar apartamento. E eu vou chorar e ele vai mandar eu parar. Porque não é o fim do mundo, achar passagens de avião com desconto não é difícil e eu tenho uma monografia para fazer.

No fim, minha estrada corre para o mar dele, de qualquer forma. Mas eu precisava desabafar antes que meu esôfago me abafasse. Que venha a monografia, as férias e o fôlego, porque passar no mestrado e chorar no aeroporto de saudades antecipadas dos meus pais no fim do ano só cabe a mim.


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Bessa: Terra de Ninguém

10 de dez. de 2009

Já são 15 anos morando em meio ao caos e à lama (bem Chico Science, né?), só agora as coisas começam a mudar. A pouco tempo foi feita a rede de esgoto, mês passado fizeram os canais pluviais e, agora, estão fazendo o calçamento pra valer.

Sim, o calçamento começou há mais tempo, mas eles (esses seres não identificados que estão praticamente na minha porta agora) faziam uma rua... Depois outra... Depois uma entre essas duas... Numa morosidade irritante. Aí as obras foram paradas. E agora estão fazendo ao menos 8 de uma só vez. Mas já chego aí.

Calçaram as primeiras ruas. Os paralelepípedos se destacavam em meio à terra vermelha. As ruas tornaram-se movimentadas, porque quem podia fazia parte de seu caminho por ali. Andar alguns metros a mais para não ter que passar por lama, terra e uma buraqueira infernal todo dia, de duas a quatro vezes por dia, não é nada.

Mas as pessoas estavam acostumadas com a buraqueira-way-of-life. Nas ruas de terra não há mão e contramão. A mão é o lado que tem menos buracos, menos pedras, menor risco de perder um pneu ou uma suspensão. No inverno, a mão é aquele pedacinho pouco de terra que se mostra nas margens de poças, por vezes verdadeiras lagoas. Quem vem de lá que espere pra passar, porque eu cheguei primeiro.

Aí vieram as pedras acinzentadas pelas quais grande parte dos carros trafegam, às vezes em velocidades mais altas do que o aconselhável para uma zona residencial com mais carros do que estacionamentos nos prédios - eles ficam, evidentemente, parados nas ruas. Nem todas as esquinas permitem que o motorista simplesmente entre à esquerda sem olhar o que vem lá. É Bessa, sim. É zona residencial, metade feita de lama, mas há outros carros circulando nas ruas, utilizando os mesmos caminhos. Mas o que isso importa? As pessoas ainda trafegam na contramão, ainda dobram esquinas sem olhar, não respeitam regras de preferência e quem respeita ganha luz alta e buzinadas. Porque - imagina que afronta! - está empatando o caminho de egos grandes demais para aceitar que aqui não é a Inglaterra e o lado certo da pista é o direito. Ou não é a Índia, onde parece não haver lado certo e errado da pista ou preferência de quem vem à direita. Mas isso pode ser apenas um estereótipo das imagens da internet e da novela indiana da Globo.

Os pedestres também geram e passam por complicações. Em diversos pontos não há calçada para eles e, quando há, muitos se sentem no direito de andar no meio da rua e o carro que desvie. Desviar pra onde, eu me pergunto? Tem calçada que não existe porque o terreno não tem construção, outras porque o dono simplesmente não fez e deixa o mato comendo solto e outros ainda que fizeram. Fizeram um lindo jardinzinho cheio de plantas e flores que impedem a passagem. Afinal, eles só saem de casa de carro, né? Então pra quê vão fazer calçadas pros outros? Eles que só andem de carro também.

***
Calçamento
Das diversas ruas que estão sendo calçadas, uma já está pronta, mas continua fechada. Aproveitando que alguém que parecia ser, de alguma forma, responsável pelo serviço estava dando ordens na calçada da minha casa ontem de manhã, fui assuntar.

Descubro que, depois de terminadas as ruas, é necessário esperar 25 dias para que sejam liberadas. Sabe como é: o cimento tem que secar pra aguentar o tranco, ou o serviço não adianta de nada. Ainda sobre questões estruturais, ele me fala que os donos das casas - inclusive a minha - terão trabalho extra no final, pois as casas foram construídas abaixo do nível da rua. Todo mundo vai ter que subir calçada e afins.

Solto a reclamação de seu Antônio Xavier, que demorou 18 anos pra ver esse serviço sendo iniciado. O senhor que controla a obra então me explica as falcatruas políticas - porque claro que não pode haver obra sem roubalheira. O projeto de pavimentação do Bessa começou no governo anterior. Algumas ruas foram feitas, a passo de formiga, o dinheiro não chegava e o desvio de verbas foi descoberto. Pára tudo e vamos discutir isso! E o Bessa fica mais-ou-menos (mais-pra-menos) calçado até que mude o governador, que conseguiu reabrir o projeto e, de acordo com o senhor baixinho, calvo e bronzeado à minha frente, se ele tá roubando, tá sabendo esconder, porque o dinheiro necessário tá chegando. Não muda minha visão negativa do governador atual, mas ao menos não ficarei mais ilhada em casa por causa da lama.

(Sim, eu perguntei sobre toda a infraestrutura necessária para garantir que tudo não vá inundar depois, que eu sou curiosa.)

A rua principal das redondezas, que liga a parte da frente à parte de trás do bairro, será asfaltada, terá linha de ônibus e tudo (e eu já imagino as batidas causadas pelas criaturas donas da rua, que vivem num Bessashire imaginário, onde qualquer mão é mão). É bom. Claro que não terei mais a trilha sonora de sítio para dormir (grilos, folhas farfalhando, passarinhos, tudo será substituído pela sinfonia urbana de buzinas, pneus travados e roncos de motores). Mas da próxima vez que meu irmão bater o carro, talvez eu tenha menos transtornos pra conseguir chegar na universidade.

Essa tal rua que será asfaltada já devia ter sido calçada desde 2004 (se é que acertei o ano). Na época das eleições para prefeito em que Ricardo Coutinho se elegeu pela primeira vez, encheram a rua de placas, máquinas e fotógrafos, revolveram a terra e nós víamos a promessa diária de que a rua estava sendo calçada com o "IPTU Cidadão". Tiraram fotos, tiraram as máquinas, deixaram a terra revirada e foram embora, sem calçar rua alguma. Dizem que a verba foi desviada para a campanha de Rui Carneiro. A única coisa que posso confirmar é que acabaram as eleições, as placas lá ficaram até o final do ano seguinte e eu tinha muita raiva cada vez que as via.

***
O post ficou enoooooooorme, mas eu queria desabafar tudo isso há muito tempo. Ia fazer de conta gotas, mas resolvi cuspir logo tudo e só voltar a falar do Bessa quando tudo fossem flores - ou quase. Espero que não apenas o descaso político tenha terminado, mas também o dos moradores esteja no fim. Cada vez que fazem um prédio mais arrumadinho, que aparenta oferecer uma boa estrutura a seus moradores eu penso: "Agora sim! Vão calçar as ruas, vão fazer calçadas, vai virar um bairro decente." 


Certas casas e certas associações ainda devem calçadas, mas acho que vão criar vergonha na cara em breve. Gosto de acreditar no melhor das pessoas.


Espero que, já que não tem mais rua de terra nem buraqueira, os motoristas passem a andar na faixa certa. É pedir demais que eles coloquem em prática o que supostamente aprenderam na autoescola?!


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Acidente (?)

13 de ago. de 2009

O carro vinha em alta velocidade pela rodovia. Ele havia cruzado um longo e absolutamente desnecessário caminho. Estava levemente embreagado. Não viu a curva. Não pisou no freio. Capotou.

O veículo rodou quatro vezes até bater num poste. O motorista, desacordado. Na madrugada vazia, de repente, surgem espectadores, cada vez em maior número, se amontoando em volta da lataria amassada. O eixo principal já era. Os comentários aumentam. Ninguém viu o ocorrido, mas todos têm um pitaco.

Alguém pensa em descobrir que é o jovem incauto. Mexe na carteira e no celular. Liga para o número registrado em "Casa". Avisa do acidente. Outro alguém chama uma ambulância. "É 911?" "Não, demente! Você tá vendo seriado americano demais! Liga pro 190."

A ambulância chega, o familiar chega, o motorista não abriu os olhos. Há um corte na cabeça, a pulsação está fraca, o sangue escorre profusamente do corte. Pede transplante! Qual tipo de sangue? Manda O+ e tá tudo certo! Mas e se ele for negativo?

O coração arrítmico não aguenta. O corpo anêmico não aguenta. O jovem falece a caminho do hospital.



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